sexta-feira, 7 de março de 2008

Estamos bem mesmo sem você.


É porque é italiano, e de nenhum outro lugar poderia ter vindo um filme assim. Explicar-me é fácil, ora; De onde mais a crise de uma família poderia ser tão emocional e significativa do que em nostra Itália? A Itália, das massas e tarantelas, é também a Itália da família coesa, e talvez este seja o patrimônio mais sagrado desta península.
"Estamos bem mesmo sem você", ou "Anche libero va bene" no original, é italiano, e daí vem muito da sua beleza.
A volta de uma mãe que havia a algum tempo abandonado casa, marido e filhos atrás de emoções é o motivo do abalo da já leve estrutura da família Benetti. Renato Benetti, interpretado pelo também diretor Kim Rossi Stuart, é o pai e patriarca do lar, Italiano do vinho nos jantares e dos eventuais tapas na cara. Desiludido no casamento, com sérios problemas financeiros e com o peso de criar sozinho os filhos, seu comportamento emocional é extremamente instável.
Tommasso Benetti, vivido muito competentemente pelo jovem Alessandro Morace, é uma criança desgastada pela ausência da mãe e pelos extremos do pai, cujo único refúgio é o futebol, paixão incompreendida por Renato. Sua irmã Viola (Marta Nobili) parece responder de forma mais madura aos acontecimentos, talvez por ser a mais velha dos dois. Mas é quando Stefania (Barbora Bobulova), a mãe, volta que milhares de sentimentos misturados e desbotados emergem, sentimentos como desconfiança, amor e saudade. É exatamente na desconstrução deste que é um grande patrimônio italiano, a família, que o contexto se desenrola.
É uma boa filmagem, com imagens muito bonitas e um roteiro sem excessos. O filme vale a pena por não cair em um dramalhão desnecessário, pois leva a história com uma beleza envolvente, bonita.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Onde os fracos não têm vez.


Onde as circunstâncias da vida arranham a alma humana, deixando-a marcada, às vezes, quase que irreconhecível. Onde o conflito com o que lhe rodeia cria uma força que não parece natural. Onde há tão pouco para se ver e acreditar que resta apenas você mesmo. Onde a primeira vez é a última chance.
1980, Texas, deserto. Longe de quaisquer olhos, seja da lei ou de Deus, uma quadrilha de traficantes mexicanos é encontrada chacinada, acompanhados apenas de drogas e de uma Briefcase cheia de dinheiro. Um caçador da região encontra-os, e toma para si a maleta, se tornando então alvo de um sóciopata contratado para recuperar o dinheiro.
O enredo, porém, muito claramente é apenas um álibi para se explorar as personalidades que surgiram da ocasião; O caçador (Josh Brolin), disposto a desperdiçar toda a sua força para garantir para si a sorte recebida, é um homem de poucos sentimentos, seco pelo deserto, usado pelo ar pesado. Tão disposto está que não se intimida com a figura doente e estranhamente poderosa do sóciopata contratado (Javier Bardem). Deste sabemos pouco, o importante, contudo, é a impressão que se passa de que talvez aquele tenha sido mais um filho de adversidades apresentadas pela vida. O xerif do condado (Tommy Lee Jones) está já perto de se aposentar, e da vida tem estampado em seu rosto marcas da dificuldade; Sisudo, taciturno, sério.
A direção brilhante dos irmãos Coen transporta da tela para os ombros do público o soberano ar do deserto com presteza o suficiente para fazer do espectador um veterano criado e vivido no Texas.
Quanto a fotografia de Roger Deakins digo que não deixa a desejar, embora seu trabalho em "A Vila" (do diretor M. Night Shyamalan) tenha me parecido superior.
Onde os fracos não têm vez (No country for old man) foi vencedor do Oscar 2008 de melhor filme, e vale a pena ser prestigiado.

Próximas conversas;
Estamos bem mesmo sem você
Piaf - Um Hino Ao Amor
Persépolis